sábado, janeiro 28, 2012

HOMENAGEM A CHICO CORRENTE POR FERNANDO RIBEIRO

Homenagem a Chico Corrente

por Fernando Ribeiro

ICEFLU

Confira o texto de Fernando Ribeiro em homenagem ao nosso querido Chico Corrente. Fernando o acompanhou em muitas viagens e esteve detido com ele na Espanha, em 2000.
Se você tem algum relato, fotos ou homenagem ao nosso querido Tio Chiquinho envie para o mail participe@idacefluris.org.br para compartilhar com nossa rede.

Certamente muitas homenagens estão sendo feitas ao professor Francisco Corrente. As principais na força do Santo Daime -na intimidade dos corações- ao som de seu belo hinário, o Signo do teu estudo, ou de tantos outros com quem tinha ligação direta. Muitas velas acesas ao redor de seu túmulo. Irmãos e irmãs ao redor do planeta tem a oportunidade de fazer sua homenagem direta ao caboclo poeta que partiu deste plano da matéria. Meu testemunho é apenas um a mais, não consegui ir ao enterro no Mapiá, soube que foi muito emocionante, mas me senti na responsabilidade de registrar algumas palavras.    
A história é feita por personagens. Alguns deixam seus rastros ao redor de casa, outros movem montanhas para marcar sua passagem pelo planeta. Na história do mundo moderno – o que nos cabe - vivemos um tempo de redescoberta de antigos conhecimentos ancestrais perdidos da humanidade. Em especial falando do uso das plantas sagradas e o conhecimento visionário, a história novamente escrita com (e por) vidas humanas.
Falamos de um homem nascido no interior da floresta, cabeceiras do rio Inauiní. Ali se criou convivendo com a família, as famílias de seringueiros ao redor e os índios Jamamadi. Aos 14 anos coloca por primeira vez os pés em uma cidade - a pequena Boca do Acre - e tem inicio a história de um homem que se tornaria uma ponte entre o saber da floresta – sua cultura profunda - e o mundo. Foi o primeiro da família Corrente a conhecer o Mestre e a bebida sagrada, e penetrou fundo em seus mistérios, como gostava de dizer. Acompanhou com seu pai a saga do Padrinho Sebastião desde os inícios, sempre em linha de frente, desde os tempos de abertura no Rio do Ouro e Mapiá, até o grande trabalho de expansão em que estamos envolvidos até os dias de hoje, no Brasil e no mundo.
Chico Corrente
Trabalhou muito o Chico, desde os tempos da Colonia. Eu o conheci em 86, em plena forma. Para mim, e acredito que para todos que chegaram por aqueles tempos quentes da década de oitenta, o Chico Corrente foi uma referência certa, uma porta segura ao universo místico do Padrinho Sebastião. O soldado da Rainha. Tive oportunidade de fazer com ele muitos trabalhos espirituais e materiais nos tempos do Mapiá, mas nossa história mesmo de parceria começou no Festival de passagem do ano 99 ao 2000, quando combinamos de fazer juntos uma viagem ao Japão. Era o inicio de um grande trabalho que concluiu um ciclo agora, estes dias, quando soube que havia se ausentado do plano da matéria. A noticia foi um choque, difícil colocar em palavras as emoções que acompanham estes momentos, um vazio grande no ar, o mundo ficou mais pobre sem ele, caboclo e guerreiro muito querido por muita gente.
Referente ao grande trabalho iniciado na virada do milênio, é impressionante ver como tudo se passou. Se aprendi muito ou pouco, está em mim, mas posso dizer que fui testemunha do trabalho do Chico Corrente na expansão deste grande conhecimento. O galardão de professor é justo e lhe cabe muito bem.
Sua presença pura e simples, mesmo onde não se entendia o português, gerava uma alquimia no ar, um ímã, todos queriam estar perto. Suas palestras improvisadas após o café da manhã, ou a qualquer hora ou lugar, e mesmo em momentos de encontros e reuniões, traziam já no tom da voz a certeza da vitória. O Chico era direto, não tinha meias palavras, era o que era e não o que pensava.  Palavras suas. O que mais atraia sua atenção eram problemas, onde havia gente sofrendo, dor e agonia, ali ele estava.  E a cura sempre vinha acompanhada de uma boa dose de alegria e boas risadas. Sempre havia tiradas mágicas na cartola, que apareciam quando menos se pensava e salvavam literalmente a situação. Também momentos densos dentro da força dos trabalhos, suas atuações, suas palavras fortes na hora da força grande. Respeitar pai e mãe, quem tem cuide. O couro forte, o pescoço inchado, os olhos brilhando e a palavra certeira. O brilho de sua presença. Marcas profundas ficaram por onde passou. No Brasil nem se diga, desde as antigas gerações até o povo mais recente, interagiu com todos que apareceram em seu caminho, sem distinção, como gostava de dizer que na sessão do Mestre não havia distinção de raça, nem de cor de pele, nem nacionalidade, nem de conta de banco, o que contava ali era amor, força de vontade e ganas de vencer. Era a prova viva de suas palavras. Talvez esse fosse o grande poder deste homem: onde chegava quase nem precisava falar, já ERA.
No dia seguinte da noticia fizemos aqui a missa e seu hinário. Ao final da missa – tomamos uma dose grande - durante o hino “pisei na terra fria...” percebi ELE vindo em pessoa receber o discípulo. Foi uma visão muito marcante porque apesar de ter convivido muito com o Chico e ter ouvido as histórias de sua vida, só agora me dava realmente conta que sua história era direta com o Mestre.  Certa vez durante os primeiros dias da prisão, contou uma miração muito antiga que sempre lhe acompanhava. Não lembro bem o começo, mas em dado momento havia se transformado em uma águia, mas era uma águia pequena, filhote. Estava no chão e percebeu outra grande vindo com tudo contra ele, para matar mesmo, e então ouviu o estrondo – ele imitava - de uma águia poderosa que pousava sobre ele e espantava o perigo.  Estava agora sobre as asas de outra águia que no decorrer da miração se desdobrava no Mestre.  Depois estavam em um avião e o Mestre em pessoa ia lhe mostrando as coisas do mundo, lugares que ainda iria conhecer, quando era ainda um jovem rapaz na periferia de Rio Branco. Durante os tempos da prisão eu sentia sempre a presença do Mestre e percebia uma história sua com o Chico, eu também me beneficiando do momento, mas a história mesmo era com ele.
Chico Corrente Fogueira
Francisco Corrente foi um homem de poder caminhando no planeta terra. Agora onde se encontre é uma nova história iniciada. Vejo histórias tão recentes como o Lúcio e o Glauco, por não falar do Vô Corrente e Madrinha Cristina, o Paulinho, com uma presença espiritual tão marcada dentro da sessão, que o Chico com toda certeza vai estar cada vez mais clarividente e presente em nosso Trabalho. Isto sim é dos grandes primores que nos propicia a Doutrina da floresta, continuar a conviver de perto com nossos irmãos que passam ao outro lado da vida.
As palavras ficam curtas para falar do Chico. Trabalhador, sempre fazendo algo, resolvendo assuntos, atento, mas por cima de tudo, para quem o conheceu na força, um príncipe poderoso do mistério sagrado. Poucos vi com tanta autoridade. Traduziu com enorme facilidade o conhecimento. Todos que beberam da fonte de suas palavras e desfrutaram sua presença receberam instruções claras e diretas. Como o hino de seu pai que gostava de cantar, ele era a fonte inesgotável...
Feitio, roçado, lavoura, replantio, rainha, jagube, canoa, Purús, comunidade, escola, meio ambiente, Amazônia, tudo na mochila. Sua natureza desde cedo o levou a conhecer outros horizontes. Trazia sua enorme bagagem e marcou presença forte nas novas famílias daimistas que se formavam fora da Amazônia. Esteve com força nos inícios de Mauá, Céu do Mar, depois os centros de Minas, São Paulo, Sta Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai, Manaus, Belém, Brasilia e todos os cantos por onde andou. No estrangeiro marcou fundo seu rastro na Espanha, agora será ainda mais. Também na Holanda e Inglaterra houve muita magia. Ao final das visitas gostava de cantar “é na boca da mata / é na boca da mata que eles moram... já trabalhou / se despede vai embora...” 
Certo é que ninguém ficava perto deste homem sem ser contagiado por sua alegria. Nos últimos tempos, por conta do mal estar, mudou um pouco, natural, mas enquanto gozou saúde para andar pelo mundo esbanjava risadas quase ininterruptas. Se encontrava alguém espirituoso por perto – um Glauco - ninguém segurava. Ao final dos trabalhos, quando era preciso, abria uma nova sessão. Cantava, puxava pontos e mandingas inimagináveis, até que estavam todos bem, sorridentes, então ia trocar de roupa e se alimentar. Esse ponto de sempre cuidar de tudo e todos antes de cuidar de si, de repartir o alimento, era marca certa do filho do Vô Corrente. 
Muita saudade vai acompanhar sempre a lembrança deste grande companheiro e professor, especialmente quando andar pelos lugares onde costumávamos trabalhar juntos. Na verdade em qualquer lugar, ouvindo com atenção as palavras de seus hinos, uma emoção muito forte se manifesta por cima de tudo. Qualquer momento. Agora mesmo. Percebendo e sentindo seu jeito de ser, sua presença, o brilho dos olhos. A certeza que vai estar sempre por perto. O herdeiro do Padrinho Manoel Corrente agora se encontra no plano, como ele dizia, e estará sempre presente.
O tom destas palavras traz algo de despedida, um adeus em certa medida, de não poder mais compartir um chimarrão no clarear do dia, lembrar histórias acontecidas, dar boas risadas, fazer planos, e o mais marcante, abrir os trabalhos e chamar a força a seu lado.
Formou-se homem ao lado do Padrinho Alfredo, Valdete, Roberto Corrente, Odemir, Pedro Dario, Nonato, toda uma geração de professores criada aos olhos do Padrinho Sebastião. Depois recebeu e interagiu com todas as gerações que continuam chegando até hoje.  Nem sei se sou a pessoa mais acertada para fazer esta homenagem, tem muita gente que conviveu muito com ele, desde os tempos antigos, por não falar de toda sua família, mas uma estrela brilhou no céu e soube que devia fazer isso. Ele ia gostar.
Então cumpadre, só agradecimentos por tudo, me desculpe minhas falhas, foi muito aprendizado, votos que você esteja bem na companhia de seu pai e de tantos e tantos. Lembranças a todos. Sabemos que ficou aqui a Janaina, teus netos, vamos encontrar maneiras de ajudar. O certo é que você vai fazer MUITA FALTA. É um dos vossos filhos aqui na terra, que pede força... menos um.
Mas ganhamos um baluarte no Astral, isso é uma certeza. Um testemunho vivo de firmeza e fé, o espírito da vitória, a certeza da LUZ, a presença do Mestre, o soldado da Rainha.
"Confio no Sol, confio na Lua, confio em meu Mestre ele é o dono do poder / de passo a passo vou seguindo meu destino, com a força do DIVINO tudo eu hei de vencer"

Vai com Deus cumpadre!
se der linha olha por nós
saudades fortes batem em muitos corações (balanceou MUITO)
você vale OURO
em frente!
Fernando Ribeiro

Um comentário:

Idacefluris disse...

Valeu a divulgação Inca.

Se puder colocar o link para nosso site nas próximas, agradecemos.

Abç

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Instituto CEFLURIS