domingo, julho 12, 2009

MAD MARIA BRILHANTE CONTA A SUA HISTORIA



Mad Maria Brihante, Rafael (entrevistador), André (neto) e Osmarina (filha) em Florianópolis.


Entrevista com a cabocla que foi vizinha de Raimundo Irineu Serra

Pioneiros


O Hinário Estrela Brilhante, recebido por Maria Brilhante, é cantado no dia de Santo Antônio, na virada de 12 para 13 de junho. Ele abre o Festival de inverno, oportunidade de celebrar a sabedoria do povo humilde da floresta.



Por este motivo publicamos esta entrevista, concedida em junho de 2007, quando Maria Brilhante e sua família estiveram visitando a comunidade Céu do Patriarca, em Florianópolis. Sua vida é um exemplo de humildade e dedicação. Suas palavras refletem a lealdade do povo caboclo que fundou o movimento sócioambiental e espiritual liderado por Sebastião Mota de Mello, hoje organizado pelo Instituto CEFLURIS.


A Senhora nasceu aonde?

Eu nasci no Pará, em Alemquer onde o rio Amazonas se encontra com o Tapajós.

E que ano foi que nasceu.

Foi em 12 de setembro de 1934.

E como foi parar no Acre?

Minha mãe foi para o Acre eu tinha um ano. Meu pai fugiu de casa. Arranjou um buxo (gravidez) numa cunhada e fugiu quando eu tinha oito meses de nascida. A minha mãe esperou, porque ele disse que ia comprar um lugar, mas não voltou. Ela ajuntou-se com outro homem e foi morar no Alto Acre. Chegamos, e com três meses ele morreu e nós ficamos só no seringal. Ah meu filho! Minha vida é um romance.

Morávamos com um pessoal que saiu junto com meu pai para o barracão (ponto de encontro do seringal) e nós ficamos na colocação. Ele disse que voltava logo, mas passou dois mês e ele não voltou. Nós sozinha em casa sem ter nada para comer. Minha mãe tentando pegar peixe onde lavava a roupa no igarapé que. Mas acabou-se tudo. A farinha que ele deixou foi pouca. A noite eu chorava, já faltando a força. Eu chorava com fome e minha mãe não tinha o que dar. De manhã ela ia nos roçado longe, que tinha, buscar aquelas macaxerinha que sobrava na terra e botava no fogo para mim comer. Comia de dia, mas de noite, meu filho, tinha fome, que a comida não alimentava mesmo. Eu chorava com fome e ela então esquentava água, botava sal na água, amornava e me dava de beber. Eu bebia aquela água e dormia. No outro dia ela ia no roçado arrancar as caberra. O pessoal arranca a macacheira, os capitão que a gente chama, e onde fica uma raiz ela brota e dá batata. E minha mãe ia nas capoeira velha arrancando aqueles cambão de roça. Chegava em casa a gente descascava, limpava, ralava, espremia, torrava no caco e fazia queles litrinho de farinha. Com isso ela fazia beijuzinho para mim comer de manhã. Ela fazia o café e no roçado também tinha cana, mas não tinha açúcar. Ela tirava a cana, batia, espremia, tirava a garapa e fazia o chá para nós tomar com o beijuzinho. Até que um dia passou um pessoal saindo do seringal e ela pediu uma ajuda pra tirar ela para o barracão.

O barracão era o lugar onde entregava as mercadoria. Era o armazém do patrão. Eu tinha 2 anos. Fomos para o barracão e ela ficou trabalhando lá, lavando a roupa do pessoal. Nao era nada, mas dava 500 réis, lavando roupa para umas pessoas e comprando alguma coisa que faltava para mim e pra ela. Até que ajuntou-se com um homem e ainda teve cinco filho dele. Hoje são vivos dois, os outros morreram. E nós ficamos nessa luta.

Depois meu padrasto começou a beber e não me dava nada. Para mim ele nunca tirou a mão para me dar um bombom. Ia para o barracão e vinha com bombom, sandália, roupa pros meninos, mas para mim ele nunca me deu nada. Ele entregava para a minha mãe e ela é quem me dava, ele mesmo nunca estirou a mão para me dar. Eu fui crescendo com aquele desgosto. Quando tinha oito ano fomos morar em Feijó/AC. Lá ele começou a beber de mais e eu fui crescendo.

Com 15 anos eu me casei com o Eduardo. Não aguentava mais. Porque nós tirava lenha, meu filho. Passávamos a semana todinha tirando lenha e carregando para a cidade, quase três horas de viagem com um cesto de lenha na cabeça. Eu tenho uma junta do pescoço que é fora do lugar. Foi uma queda com um feixe de lenha. Cai e o pescoço rodou. Passei mais de ano sem poder mexer o pescoço. Minha mãe fazendo promessa para Sto Antonio, São Francisco. Eu passei baixo. Tinha gostado do Eduardo e resolvi me casar. Fui para minha casa aí melhorou um pouco. Eu ia dormir no chão. Já dormi sem roupa para me embrulhar. Já sofri muito neste mundo, sabe. Dou graças a Deus eu viver por aqui, e agradeço a Deus e o papai que me trouxe para dentro desta Doutrina, me puxou. Que eu sei que ele foi quem me trouxe. Foi ele que me carregou. Na primeira vez que eu vi o Pd Sebastião, ele disse assim: "Custou, mas chegou minha filha". Eu não sabia nem porque, agora é que eu estou entendendo tudinho que ele me falou. Graças a Deus, de lá pra cá, é a minha família, é o meu povo mesmo esse pessoal. Tem o hino do Paulinho que ele dá graças a Deus que está na família de São João Batista. Eu dou muitas graças a Deus e peço muito pela felicidade desse povo cansado, que estão lutando com nós - o Antônio, Valfredo, Valdete, eles tão na batalha por nós. Que nós ficamos entregues a eles. Papai saiu e eles ficaram aqui tomando de conta. Tenho maior amor por eles e o maior respeito, porque eu sei que é eles mesmo que estão levando a Doutrina, a comunidade, a irmandade.

A como a senhora conheceu o Mestre?

Nós saímos de Feijó e fomos para Rio Branco. Fomos morar com minha mãe, na Custódio Freire, seis quilômetros de onde o padrinho Irineu morava. Eu fui estudar de novo. Tinha aula de noite e o Luís Mendes era o professor. Teve um dia que não ia ter aula. Minha mãe dizia que era porque tinha "trabalho lá" . Um dia eu perguntei: "Seu Luís, porque não vai ter aula?". "É concentração", ele respondeu. E o que é? Ele me disse e eu pensei: ah, é o cipó! Eu já tinha tomado o cipó com os caboclos muitos anos atrás. É o cipó e eu vou lá. Eu, uma amiga e um rapaz que estudavam junto comigo, nós enganava minha mãe. Nós dizia que ia para aula, e perto da escola estavam fazendo estrada e tinha aqueles bueiro bem grande. Nós entrava dentro dos bueiro e deixava os livro tudo ali e ia para a igreja do Irineu tomar o cipó. A primeira vez só eu que tomei, os outros não tomaram não. Aí eu disse: "pronto, não saio mais". Nunca mais saí, graças a Deus!

E eram bons os trabalhos com o Mestre?

Era bom. Mas não tinha muita diferença porque o Daime é o mesmo. O Daime não mudou, a força é a mesma e o Mestre está do lado mesmo, porque ele saiu, mas não nos abandona.

E se fardou com o Mestre.

Foi. O Mestre foi quem deu minha farda. Tava com três anos que eu tomava Daime e um dia ele perguntou para mim: "tu não está fardada ainda por que?". Eu disse: "olha padrinho, eu não tenho dinheiro para comprar minha farda, o dinheiro que o Eduardo ganha só dá para fazer o rancho, comida de casa e leite pros menino (a Osmarina e o Tonho)". "Pois é", disse ele, "as coisas são assim mesmo". Na hora que eu ia saindo ele pegou 50 mil réis e deu: "toma minha filha, vai comprar sua farda. Quando você chegar leva na Percília que ela faz sua farda. Amanhã a Peregrina vai pra rua, vai com ela que ela te ajuda a comprar o que precisa". Eu fui na Peregrina: "O padrinho me deu um dinheiro para comprar minha farda, tu vai pra rua amanhã e vou mais tu". O outro dia nós fomos. Ela comprou minha farda, todos os verdes e levamos na Percília. Quem me deu minha farda foi meu Pd Irineu. A estrela eu fiz de papelão, com aquele papel douradinho. Depois, o Pd Irineu teve uma visão que era para todos nós usar. Que os homens usavam a fita que nem nós. Usava a fita, usava uma rosa e as mulheres usavam o vestido branco com a faixa e uma fita, não tinha o saiote. Ai ele disse que quem pudesse mandar fazer uma estrela de prata fazia, quem pudesse de ouro fazia de ouro, quem pudesse desse metalzinho amarelinho podia fazer. E as mulheres iam usar o saiotezinho e deram jeito no saiote, um palmo de saiote do corte para baixo. Um dia o Pd Sebastião foi para rua e mandou fazer as estrelas: a minha, a do Valfredo, do Valdete e a dele. Eu nem gosto de andar muito com ela de medo de perder. O papai me deu uma estrela de ouro. Hoje eu tenho minha estrela.

E a senhora encontra com a dona Peregrina ainda?

Sempre que vou a Rio Branco eu passo lá. Ela já está bem velhinha, mas era mulher muito bonita e nós convivíamos muito. Na casa do Pad Irineu se fazia arraial. Nós ia pra lá e matava porco, matava galinha, matava pato, nós fazia bolo, nós assava carne - fazia tudo quanto era coisa para fazer o arraial. Era animado lá. Depois ele fez a passagem e acabou-se tudo, o pessoal foi embora tudo.


E quando chegou no Mestre o hinário dele estava em qual hino?

Tava no Cruzeirinho. Era todo mundo morando pertinho dele. Todo mundo com seus terreninho, ele no terreno dele. Nós mesmo moramos cinco anos no terreno dele. A cerca da minha casa era uns dez metros e atravessava para o terreno da Igreja. Na frente tinha outra cerca que era uma área de terra que ele deu para fazer um seringal. O Eduardo trabalhava nesse seringal, mas depois o dono fechou o seringal e não quis mais. E de lá, graças a Deus, fomos pra perto do papai também. Depois que ele saiu o pessoal espatifaram tudo, foram embora tudo, debandaram tudo.

E a Senhora decidiu ir com o Pad Sebastião...

Graças a Deus! No dia que nós fomos se despedir, que nós ia sair para a 5 mil, o Pd Irineu pediu pro Eduardo nunca deixar o papai. "É Eduardinho, você vai sair e vai lá pra perto do Sebastião Idalino (chamava o papai de Sebastião Idalino). Nunca deixe o Sebastião, seja companheiro forte dele ". Até hoje nós estamos por aqui.

E como foi a vida com o Pd Sebastião.

Logo depois que chegamos o pai foi pro Rio do Ouro. Queriam tirar nós da 5 mil porque não tinha mais terra pra gente plantar. Era só capoeira, não dava mais nada. Aí ele foi procurar terra para os lados do Inauini. Quando ele veio de volta levou toda a família para o Rio do Ouro. Mas foi muito difícil lá. Da estrada onde a gente deixava o carro tinha que caminhar três horas a pé para chegar. E de uma terra para outra era muita lama, muito ruim. Para levar as coisas de caminhão o Odemir é quem carregava, ainda tinha que atravessar o rio para o outro lado e levar tudo nas costas. Três horas de viagem pra carregar toda a mercadoria nas costas até lá. E adoecia todo mundo. Pegamos uma malária muito forte, muito mesmo. Papai adoeceu, a mãe (Md Rita) adoeceu.

Outra dificuldade é que tinha três cachoeiras no rio, cada qual mais forte. Uma vez perderam uma canoada de mercadoria de seringa. A canoa emborcou e rebentou tudo. De uma cachoeira para outra tinha que sair com a canoa e levar a mercadoria nas costas, na margem do rio, porque a canoa não atravessava a cachoeira. Um dia botaram para atravessar numas pedra e a água pegou tudo e arrebentou. Por isso o pai foi seguindo atrás de um lugar lá perto da Boca do Acre. Chegando lá encontrou o Incra e eles falaram: "O senhor anda atrás de terra pro seu povo? Nós temos uma reserva e se quiser ir para lá tomar de conta com teu povo, pode ir". E o velho disse: quero. Um dia ele voltou. No dia de São Sebastião, ele estava na fazenda, na boca do Igarapé, onde é o Chiquinho (Chico Corrente). Depois foi subindo o povo para lá. Quando chegou agosto eu fui. O Eduardo já tinha ido, junto com um bocado de gente. A Osmarina, minha filha, foi na frente também.

Não sei como é que nós passamos essa fase, que foi muito pesada na vida. Fomos para o Mapiá e lá tinha alguns moradores. Tinha o velho Amâncio e sua família, que ajudou a gente num pouco. Mas quando nós chegamos, não tinha lugar para atar uma rede. Não tinha palha, não tinha nada. As rede eram atada na beira do igarapé, nas árvores. Fizemos uma cozinha, que nós ia cozinhar machucando o barro, que logo fazia lama e nós jogávamos mato dentro da cozinha para secar a lama. No lugar da gente dormir, forrava de noite com mato verde para os mosquiteiros não melar de lama. Graças a Deus fomos indo, fomos indo e até hoje estamos lá: dando conta e lutando.

O padrinho foi embora, mas a gente tá fazendo força para ver o que vai fazer com o lugarzinho que ele deixou a gente. Ver se a gente vai cultivando mais, mas é muito difícil. Porque com ele, meu filho, a gente atravessava brejo de pedra, trilha de espinho e ninguém sentia nada, tava todo mundo feliz. Mas sem ele a coisa mudou muito. No tempo do papai, no Mapiá, nós não comprava mercadoria. Tínhamos de tudo em casa, até bombom pras crianças, que ele mandava comprar. O Chico Corrente é quem carregava em Boca do Acre e colocava no armazém na boca do igarapé. O Chiquinho pegava até seis homens que saíam com ele num canoão grande - e era no remo mesmo, no varejão. Enchiam aquele canoão e ficavam seis dias dentro do igarapé para chegar em casa. Remando! Remando e no varejão. E esse negócio de chegar e dizer que tava cansado e vou descansar... não. Descarregava a canoa e no outro dia virava pra traz de novo. Mais seis dias de viagem. Do Mapiá até a Boca do Acre. Descarregava a canoa, carregava a canoa. Levava a canoa pelo seco. Rolava a canoa em cima dos pau. Era rolando pau. Até que eles chegavam, com muita luta.

Mas era uma felicidade pra gente... acredita? Uma felicidade, só de saber que estávamos com o pai ali. Ninguém reclamava nada, todo mundo era feliz e tranqüilo. A mercadoria chegava, ele pegava uma cadeira e botava na varanda da casa e todo mundo ia lá encher o saco, todos levavam do que precisavam. "Eta que as formiguinhas hoje tão carregando tudo que é comida pras morada, pros filhinho ", era uma felicidade que ele achava. Aquele prazer que ele tinha de ver nós daquele jeito. Nós não comprava, não tinha dinheiro, mas nós tinha de tudo. Esse negócio de levar uma coisa que faltou e anotar no caderno que o fulano levou - não tinha isso. Era ele botando a mercadoria no armazém e nós trabalhando em roçado, que a produção ia pro armazém também. Dali todo mundo tirava farinha, arroz, feijão - tirava de tudo. Todo mundo botava ali e quando era para buscar de comer, era dali que saía. Ele mandava até pelar o arroz em Boca do Acre.

Agora a gente tem de tudo lá, mas é tudo no contrato. Mudou muito. É uma cidade - da televisão ao carro. Para quem não tinha um motor para puxar mercadoria... (eheh). Ja falei com o Alfredo para ajuntar o povo e fazer como o papai fazia. Plantar junto. Ele disse: "Mana, mas o pessoal não quer mais". Já espalhou todo mundo e ninguém mais quer viver assim. Cada qual está vivendo a sua vida. Mas eu disse pra ele, se dois ou três quiserem viver daquela maneira... foi a vida que o pai tinha. A vida que conseguiu para nós. Se juntar ali uns quatro ou cinco para levar este tantinho, não falta para nós. Agora está difícil mesmo. O problema é atender todo mundo.

E a história do garrafão do Daime que o padrinho dizia que ia levar pro mundo todo.

Um garrafão não, ele tava com um litro de Daime. Quando ele trabalhava pra fazer o Daime ele ganhava um litro e fazia trabalho na 5 mil com esse litro. E dizia que ia sair a botá Daime no mundo inteiro. Eu achei muito difícil! Levar para o mundo inteiro ganhando um litro de Daime? Era o que ele ganhava do Mestre.

Foto: Maria Brihante, Rafael (entrevistador), André (neto) e Osmarina (filha) em Florianópolis.
Entrevista e foto: Rafael Gué Martini

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